domingo, 26 de setembro de 2010

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vida e Obra sob o olhar de Carol Marques

A viagem
Antes e depois dos Emirados Árabes

Em meados de outubro de 1991, a convite de um casal de músicos que conheceu em Brasília, Marcus Teixeira e Patrícia Lopes, Zélia partiu para os Emirados Árabes, no Oriente Médio, para cumprir um contrato de três meses, que se estenderam para cinco. Na maioria das vezes, cantava para pessoas que não entendiam uma palavra em português, pois o seu público era bem diversificado: árabes, europeus, australianos, etc. Zélia define essa experiência como um desafio e um prazer absoluto. No período distante da sua nação, teve grandes influências, que eram super cultivadas, como Joni Mitchell, Joan Armatrading, Sam Cooke, Ry Cooder e Peter Gabriel, além de sons orientais. Nesse contexto, foram se revelando dentro de Zélia inspirações que a fizeram compor letras que a transformariam em uma grande compositora, como a canção “O meu lugar”, que foi escrita em Abu Dhabi. Após compor, ela enviava as letras de músicas a seus parceiros que estavam no Brasil.
Em maio de 1992, após retornar ao Brasil, Zélia havia reforçado sua personalidade em todos os sentidos: não queria interferência, nem falsos parâmetros, só pensava em retomar o seu trabalho e fazer um som mais acústico, menos metal e cantar as próprias canções, pois na sua bagagem havia inúmeras composições, fruto de suas vivências ora felizes, ora solitárias, saudosas ou reflexivas. Zélia foi convidada por Almir Chediak e acompanhada por Marco Pereira, no Estúdio Smith, a gravar “Sábado em Copacabana”, uma das faixas do songbook de Dorival Caymmi. Durante a gravação, recebeu um convite da produtora Beth Araújo, que era sua sócia e empresária, para gravar pela Warner o seu segundo disco. Zélia Cristina passou a chamar-se Zélia Duncan, por sugestão do presidente da Warner, o que lhe rendeu a oportunidade de prestar uma homenagem a sua avó materna, por quem tinha uma verdadeira adoração. O disco “Zélia Duncan” foi lançado no final do ano de 1994 e a maioria das letras foram compostas em parceria com Christiaan Oyens, seu amigo, que também tocou bateria, bambolim e violão no álbum. Em março de 1995, apresentou todas as canções do novo disco e canções como “João Ninguém” de Rita Lee e Roberto de Carvalho, “Vou tirar você do dicionário” de Itamar Assumpção e Alice Ruiz e “Doce de Coco” de Jacó do Bandolim e Hermínio Belo de Carvalho, que foi sucesso na voz de Elizeth Cardoso.




Carol Marques

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Vida e Obra sob o olhar de Carol Marques

O início

Zélia Cristina Gonçalves Moreira nasceu na cidade fluminense de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro de 1964. Filha de funcionários públicos, Louise Gonçalves e Antônio Moreira, e irmã de Afonso César, Luiz Otávio e Helena, viveu em Niterói até os 6 anos de idade, quando a família mudou-se para Brasília, no ano de 1971.
Desde pequena, aguçava dentro de si o lado musical, Zélia ficava escondida no canto da sala, ouvindo as serestas que seus pais promoviam a amigos e familiares. Aos 10 anos de idade, interessou-se pelo basquetebol e animava as viagens do time ao som da sua voz e violão. Jogou até os 16 anos, quando veio a opção definitiva pela música, pois a data de um campeonato coincidiu com a data de um festival musical.
Aos 12 anos, Zélia surpreendeu sua mãe com uma gravação caseira da canção “Tatuagem” de Chico Buarque, demonstrando os primeiros índices da grande intérprete que se tornaria. Em meados de 1981, começou a cantar profissionalmente na saudosa Sala Funarte em Brasília que, na época, abria concursos, dando oportunidade a novos talentos. Após enviar uma fita caseira, ela conquistou o primeiro lugar: a abertura do show era com uma música do Milton Nascimento, "Fazenda", e o repertório se desfolhava por aí. A apresentação teve grande repercussão e Zélia começou a se apresentar em diversos lugares e, até mesmo, na Sala Funarte. Esse show é considerado o marco inicial de sua carreira, o que lhe rendeu a oportunidade de reapresentação no “Projeto Pixinguinha”, cantando ao lado de nomes consagrados como Wagner Tiso e Cida Moreyra.
A cidade de Brasília, além de proporcionar um certo surrealismo no seu dia-a-dia de cidade pretensiosamente planejada, deu-lhe a oportunidade de realizar trabalhos extremamente profissionais, com músicos especialmente sensíveis, com quem aprendeu e apurou os ouvidos.
Vale ressaltar que, no tempo que viveu em Brasília e que sua trajetória começou a deslanchar, Zélia fez amizades com grandes nomes do pop rock nacional, como Dinho Ouro Preto, ex-vocalista da banda Aborto Elétrico e atual vocalista da banda Capital Inicial, Renato Russo, vocalista da eterna Legião Urbana e como a saudosíssima cantora e intérprete Cássia Eller; tais nomes seriam grandes parceiros e influências na sua carreira.
Aos 22 anos, Zélia volta para a sua cidade natal, onde passa a dividir o tempo como locutora de rádio, fazendo “jingles”, e cursando teatro na Casa de Artes das Laranjeiras. Nas horas vagas, montou sua primeira apresentação no Rio de Janeiro e descobriu o prazer de cantar em inglês e procurar músicas brasileiras mais inusitadas, que não tivessem interpretações muito óbvias, e isso lhe deu uma liberdade essencial. No ano de 1989, com uma produção dirigida pela diretora de teatro Ticiana Studart, que estava chegando de Nova Iorque, com idéias que vinham ao encontro dos seus planos de fazer algo mais arrojado e irreverente, foi lançado o seu primeiro show. Os recursos eram caóticos e as idéias jorravam mais a cada dia. “Muito bem, produzir é um caos, os espaços são um caos, a violência é um caos, o isolamento cultural é um caos”1, tinha-se o repertório e o nome do show: “Zélia Cristina no caos”.
Embora ainda correndo à margem da grande mídia, sem críticos ou chamadas na TV, o resultado foi muito recompensador: da Laura Alvim a apresentações no Mistura Fina, ambos com lotações esgotadas. Em uma das apresentações, Zélia foi convidada por um produtor musical do estúdio Eldorado para gravar seu primeiro disco, “Outra Luz”, no ano de 1990, no qual regravou nomes importantes da música, como Itamar Assumpção, Caetano Veloso, Beatles, THE Police e umas faixas inéditas de outras pessoas. Além do investimento do estúdio Eldorado e do incentivo de sua empresária, o disco proporcionou-lhe a oportunidade de se apresentar em São Paulo (Crownie Plaza), Porto Alegre, Florianópolis, Brasília e no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro). Apesar de tantos compromissos e participações em diversos programas de televisão, aquele foi um ano intenso e estimulante, porém o disco estava longe dos anseios da cantora, pois não havia dado continuidade a ele.
Carol Marques

sábado, 28 de junho de 2008

Tempestade sob análise de Carol Marques

Zélia Duncan apareceu no cenário da MPB em meio a tantas divas, como a saudosa Elis Regina, Elizeth Cardoso, Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão, entre outras. Observando a sua trajetória, podemos constatar que ela alcançou um lugar de destaque e prestígio na música popular brasileira, o que é notório em cada disco, músicas de qualidade, com letras de fino trato, de quem tem um público definido e que de certa forma faz o seu protesto às diversas questões sociais do nosso país, como analisamos na música “Tempestade”, que foi composta no ano de 1994, em parceria com Christiaan Oyens.


Tempestade

A tempestade me assusta
Como sua ausência
Você, raio humano
Despencou
Na minha cabeça
E desde então
Grita
Esse trovão
No meu peito
A chuva lá fora
Chove de fato
Enquanto sua ausência
Inunda meu quarto
E transferência na cama
Agora eu entendo
Meus sonhos
São outros
Enquanto eu durmo
Enquanto te espero
E chove no mundo
Eu não me acostumo
Com a falta de rumo brasileiro
E esse tom de desespero
Que atingiu o nosso amor
Penso no homem que dorme
Nas ruas do rio
E agora flutua nos rios da rua
E os barracos
Na beira do abismo
Deslizam no cinismo
Da vieira do souto
Meus sonhos são outros
Enquanto não durmo...
Por dentro dos túneis
No fundo do poço
Ninguém fica imune
Crescendo no esgoto
E nosso amor
Sem risco e sem gloria
Se escora na história
Do meu país do desgosto
Meus sonhos são outros
Enquanto não durmo.





Nas entrelinhas dos versos bem elaborados, onde poesia e revolta se fundem, podemos notar um clamor social, quando faz menção à “Vieira Souto”, uma das avenidas mais importantes da cidade do Rio de Janeiro, onde impera a classe dominante, a burguesia e em outros versos retrata a pobreza, contradizendo-se com a miséria que mora nas ruas da mesma cidade, onde homens moram dentro de túneis, permanecem com seus barracos à beira do abismo, sem ninguém olhar por eles. Enquanto uma minoria vive desfrutando de bens, de luxos, vaidades, uma grande maioria passa fome, sobrevivendo à violência constante da cidade maravilhosa à procura de emprego, de uma vida digna, decente, em busca de sonhos que nunca são alcançados.
Nos versos da canção totalmente ritmada, pela repetição de sons semelhantes, no final dos versos diferentes, ora no interior do mesmo verso, ora em posições variadas, Zélia cria um parentesco fônico entre palavras presentes em dois ou mais versos, tratando-se de um recurso de grande efeito musical e rítmico.
A compositora questiona nas entrelinhas que país é esse, onde a arte e a desigualdade vivem tão perto, como um amor pode viver em meio a tantas contrariedades? Há orgulho ou desgosto de pertencer a essa nação? E nos passa a impressão de um diálogo do narrador com um outro alguém, um suposto amor do qual espera e ao mesmo tempo faz uma crítica à sociedade que fica imune as desigualdades tão evidentes no país.
Zélia retrata, através de um desabafo poético, a grande desigualdade social do nosso país. Um Brasil divido em dois, Brasil de grandes avenidas, metrópoles, riquezas e Brasil de becos, barracos e pobreza, um espelho da sociedade, sem risco, sem glória, de vazios não preenchidos.


Carol Marques

sábado, 7 de junho de 2008

Verbos Sujeitos sob análise de Carol Marques


A canção “Verbos Sujeitos” foi composta no ano de 1999, em parceria com Christiaan Oyens. A letra é admirável, por sua inteligência, pela perfeição de cada verso. Podemos analisá-la através das estrofes, onde os sujeitos são submetidos a verbos que, em princípio, não sofreram ação, que se permitem ser desmontados e remontados em qualquer ordem.
Zélia retrata na letra um sentimento, de um amor que está ali, para ver, sentir, perder, encontrar, reter, esperar, convencer, avistar, entender, acionar, esclarecer, acordar, morder, selar, estremecer, encantar, comover, alcançar e enternecer. E, de um outro que anseia em ser a ação, o meio utilizado para se alcançar esse sentimento.
É perceptível o jogo com as palavras e a sonoridade ao pronunciá-las. Podemos analisá-la através das estrofes que permitem a metrificação através de sílabas poéticas. A música é composta por 6 estrofes, sendo que cada estrofe é composta por 4 versos, uma verdadeira poesia cantada, que submete o sujeito do verso como a um ser que suplica para sofrer a ação de ser amado, de ser transformado em ação.

O/lhos/ pra/ te/ re/ver A
Bo/ca/ pra/ te/ pro/var B
Noi/tes/ pra/ te/ per/der A
Ma/pas/ pra/ te/ en/con/trar B

Fo/tos/ pra/ te/re/ter A
Lu/as/ pra/ te es/pe/rar B
Voz /pra/ te/ con/ven/cer A
Ru/as /pra /te a/vis/tar B

Cal/ma /pra/ te en/ten/der A
Ver/bos/ pra/ te a/cio/nar B
Luz /pra /te es/cla/re/cer A
So/nhos/ pra/ te a/cor/dar B

Ta/ras/ pra/ te/ mor/der A
Car/tas/pra/ te/ se/lar B
Se/xo/ pra es/tre/me/cer A
Con/tos/ pra/ te en/can/tar B

Si/lên/cio/ pra /te /co/mo/ver A
Mú/si/ca /pra/ te al/can/car B
Re/frão /pra/ te en/ter/ne/cer A
E ago/ra/ só /fal/ta/ vo/cê C

Meus verbos sujeitos ao seu modo de me acionar B
Meus verbos abertos pra você me conjugar B
Quero, vou, fui, não vi, voltei, D
Mas sei que um dia de novo eu irei D

É perceptível o jogo com as palavras e a sonoridade ao pronunciá-las. Podemos analisá-la através das estrofes que permitem a metrificação através de sílabas poéticas. A música é composta por 6 estrofes, sendo que cada estrofe é composta por 4 versos, cada verso é composto nas 5 primeiras estrofes de cinco sílabas, ou seja, uma redondilha menor, da mesma forma que na Idade Média era utilizada pelos poetas portugueses nas cantigas de amor e de amigo. Sobre as quatro primeiras estrofes da canção, temos rimas interpoladas e emparelhadas.
Sendo o ritmo, de modo especial, uma produção artística, torna-se evidente a sua presença na poesia, dentro da letra que possui um caráter de oralidade muito importante, por ser feita para ser falada, recitada e mesmo que estejamos lendo-a silenciosamente, notamos o seu lado musical, sonoro, que nos remete à novos significados no texto, como ilustram as leituras “rítmicas” que se seguem.
Na última estrofe da canção, os verbos no presente (quero), no futuro (vou) e no passado (fui) fazem menção à um desejo encoberto nas notas de outros versos da busca da felicidade e de momentos onde as ações possam realmente serem almejadas.
Verbos Sujeitos é uma verdadeira poesia cantada, que submete o sujeito do verso como a um ser que suplica para sofrer a ação de ser amado, de ser transformado em ação.


Carol Marques

terça-feira, 20 de maio de 2008

A influência de Itamar Assumpção


Em 1949, nasceu Itamar Assumpção, na cidade de Tietê, interior de São Paulo. Descendente de escravos angolanos, o cantor ouvia, desde pequeno, a música dos terreiros de candomblé, que vinham do quintal da sua casa. De 1963 a 1973, Itamar morou no Paraná e lá iniciou sua carreira musical, largando um curso de contabilidade. Na época, conheceu Arrigo Barnabé, um de seus parceiros mais constantes. Em 1973, Itamar mudou-se para São Paulo, onde lançou seu primeiro LP: Beleléu, Leléu, eu, com a banda Isca de Polícia, no ano de 1980. Itamar é ator, compositor, arranjador, cantor e produtor musical.Teatralmente, personagem e criador se fundem nas suas letras, pois Itamar nasce para a música brasileira com um tipo caracterizado de morador da periferia metropolitana. Nos anos 80, aconteceu o encontro da lira paulistana teatro-movimento-gravadora, que reuniu muita gente que fazia música popular de São Paulo.
A única grande gravadora a acolher seu trabalho foi a Continental, que foi comprada, anos mais tarde, pela Warner. Em 1988, o disco tinha o irônico título Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava. Mantinha-se firme em seu projeto de independência artística, que para os desavisados é resistência turrona em não ceder ao canto da sereia das gravadoras e à vida do sucesso garantido, porém sucesso não é música, afirmava Itamar.
Alegava que sua música subsiste pela experiência de choque, que é cada um de nós no desconforto da vida em São Paulo, inquieta a cada esquina, surpreendente em cada bairro, atordoante em todos os cantos, pois ser independente para que a diferença faça a diferença era o seu intuito. Encenando a história da Música Popular Brasileira, de seus compositores e cantores, nas letras, nos batuques, na percussão, no baixo, nas guitarras, no trombone de seus arranjos, na voz que comenta, que apresenta, Itamar deixa claro saber muito bem o que significa e implica a tal independência.
A influência de Itamar Assumpção na vida e nas letras compostas por Zélia Duncan remete ao seu som, que é uma mistura fina do que traz de fora com o que encontra por aqui.
O último CD, Pretobrás, foi gravado em 1998 e precedeu um momento delicado na vida do compositor, pois, no ano de 2000, Itamar foi submetido a três cirurgias para a retirada de um tumor do intestino. Ainda em recuperação e sob tratamento quimioterápico, continuou fazendo shows. Infelizmente, no dia 12 de junho de 2003, Itamar faleceu na cidade de São Paulo, vítima de complicações causadas pelo tumor, aos 53 anos.
Zélia Duncan, desde a gravação do seu primeiro disco, grava canções de Itamar Assumpção e afirma que ele a ajuda fortalecer seu discurso em seu trabalho. Tanto Zélia quanto Itamar são sombra fresca da realidade, resposta, com suas vozes encorpadas passeiam por elegantes estilos musicais se apropriando deles com muita autenticidade.
Carolina Marques

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Sortimento de Emoção!!!

Existem essências na alma das pessoas, pessoas que por valorizarem pequenos detalhes tornam-se fundamentais em nossas vidas... pessoas que reencontramos nas esquinas da vida e que acrescentam muito em nossos dias.
Obrigada por ser essa essência e por emocionar-me pelo simples fato de existir...

Carol Marques