
Na década de sessenta, a MPB se renovou, passando por uma grande revolução que, mais do que nunca, projetou o Brasil no exterior. Assimilando influências do jazz, mormente no que se refere à cadência e ao improviso, o samba deu luz à bossa nova, que foi seguida de perto por outro movimento marcante, porém menos duradouro, conhecido por tropicalismo, surgido em 1967, e que tinha como característica marcante o que se costumou chamar de antropofagia, numa alusão direta às idéias do grande escritor do modernismo, Oswald de Andrade, pois incorporava diversos elementos provenientes de outros setores da cultura, mesmo estrangeiros. Um deles, por exemplo, era o rock, que sempre foi refutado pelos puristas da MPB. O tropicalismo teve como compositores e intérpretes Gilberto Gil, Torquato Neto, Tom Zé, Nara Leão e Gal Costa, que não estavam preocupados, pelo menos no início, em criar um organismo à parte na MPB, muito menos com cara e nome nacionalista.
É importante ressaltar que o tropicalismo floresceu na época dos grandes festivais da MPB, que revelaram ou deram impulso para inúmeros compositores e intérpretes. Entre eles: Chico Buarque de Holanda, Ivan Lins, Walter Franco, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, entre outros. Quem viveu naquela época afirma que o que houve de melhor na nossa música, durante o período em que imperou a Revolução de 1964, foi feito por compositores da era dos festivais. Após a revolução, a MPB desgastou-se bastante, sobretudo pela assimilação de valores inúteis de outras culturas. Por essa razão, os artistas, ideologicamente, foram obrigados a gravar através de selos independentes, devido à influência de músicas norte-americanas nas rádios, fazendo com que a nossa identidade fosse se perdendo. Mas o movimento independente ganhou força no início dos anos oitenta, revelando artistas como Itamar Assumpção.
Nos dias atuais, a Música Popular Brasileira vive um de seus momentos mais ricos, pois nunca se ouviu tantos compositores e tantos intérpretes, de tantas vertentes, dos mais variados cantos do país. Novas gerações convivem produtivamente com as antigas e um movimento geral de reavaliação da música popular brasileira só vem revigorando seu papel central na identidade do país. A música é uma das reservas mais ricas do afeto, do humor e da sabedoria do povo brasileiro, desde o seu surgimento, na época do descobrimento, em meados de 1500, com a música indígena brasileira.
Sendo a música uma forma de arte que tem como elementos fundamentais o som, o ritmo e o timbre, é notória a presença e influência nas canções da cantora e compositora Zélia Duncan, que apareceu nesse cenário, em meados dos anos oitenta, juntamente com as cantoras e intérpretes Cássia Eller e Selma Reis.
Zélia e sua nova música popular brasileira são inseparáveis, quando se trata de um ponto de sua trajetória, pois ela simplesmente a encarnou, como a uma entidade que, com o tempo, viu-se não ser apenas uma de suas expressões mais brilhantes, mas também um emblema de força única, que veio adquirir essa arte entre nós, importante no processo de aquisição dessa força, que a levou ao reconhecimento num âmbito de maior amplitude da sua história.
Por outro lado, Zélia elevou a letra de música ao status do poema, a poética presente em suas letras faz de sua canção uma modalidade de poesia cantada. Rompendo os limites entre o popular e o erudito, alta e baixa cultura, elevou o seu repertório de referências da MPB e, ao mesmo tempo que exigiu o melhor, contribuiu para que o público elevasse seu próprio repertório. Transcendendo o campo já em si bastante amplo, se alinha a Dorival Caymmi, Tom Jobin, Lenine, Rita Lee, Cássia Eller, Renato Russo, Itamar Assumpção, Alice Ruiz, Simone, Sérgio e Arnaldo Baptista dos Mutantes, entre tantos grandes nomes dessa e de outras gerações da nossa música.
Longa e longeva é sua obra, tão cheia de e cheirando a vida. Zélia vai além de suas composições e escreve crônicas retratando o seu cotidiano, as suas viagens, as suas experiências como cantora, compositora, pessoa, cidadã. A durabilidade é assegurada pelo mix de quantidade e qualidade de sua produção, tão extensa hoje, tão intensa sempre. Imprime a todas as músicas sua marca: a voz rouca e implacável. Mas, o que transcede em Zélia Duncan é a simplicidade e a generosidade que a artista traz em sua conduta na vida e, ao traduzir o coração em música, comove desde o ouvinte mais humilde ao mais refinado.
A obra de Zélia Duncan foi sendo descoberta sem urgência, à medida que as letras foram incorporadas a seus temas, pois a música, assim como toda arte, é passível de um olhar plurissignificativo. Sendo assim, Zélia retrata-a com uma linguagem simples, tocando o sublime.
Carol Marques